No Dentro e no Fora – a Mãe Ideal, a Idade Real, o Amor Ideal e a Minha Própria voz.


Ao esvair evasões, a Vida espairece dos espasmos.
A voz ideal sai do ilusório útero, adentra o berço das reais veracidades e o vazio começa a encolher de cheios.
***
Vidas iludidas construídas sobre o molde socrático da perfeição.
A Mãe Ideal, onipotente onisciente onipresente (Não existente!). Uma Mãe capaz de preencher todas as necessidades, todos os buracos da minha, da tua, da nossa tenra terra imatura, de acalantar meus alvoroçados transbordados esparramados pensamentos – meio/bastante irreais: delírios irracionais e plausíveis no quase.
No ainda velejam veleidades, vaidades veladas em manipulações onerosas, vexatórias, dispendiosas…
Muitas faces passaram por minha frente, por minha fronte, e foram vitimizadas pela vítima maior: eu mesma, a pobre coitada, quem agora convalesce doente de si, de seu próprio ego destruído em colisões, em brigas com a realidade, com a real idade – a minha, a da Terra, a da Verdade.
***
A minha real idade é a do bebê interno. A minha real idade é a da velha que xinga. Xinga o bebê que chora e ao mesmo tempo o consola, sendo sua mãe tão seca maldosa. Seca voz que me chama para que eu nunca me esqueça: eu sua a média entre o bebê e a velha.
Esta voz grita-me querendo sair daqui, deste buraco escavado arranhado. É a minha voz, a voz da mãe, do bebê, da moça, da velha, da mulher que sou em vermelho menstruação.
Fértil, gero-me. Gero fértil minha vida, consolo para minhas fraquezas tão, tão verdadeiras quanto a minha força cuja força eu supunha esquecida. Esta força me faz lutar a cada instante contra a dor reaparecida no incessante.
Não por acaso escavo buracos.
Não por acaso busco esconder-me num eterno ventre.
Todos os animais se recolhem quando machucados.
No esconder-se a cura se realiza.
***
– Entre as linhas dos asteriscos, (a)risco-me numa digressão –
Reação normal. Quem convenciona o normal? A meu ver, normal é a Seleção Natural e o fazer dos animais, embora sejam de elevada agressividade quando atacados. Mas nós também não somos assim? Não, nossa agressividade é gratuita.
Sábios em suas curas, zelosos em suas mortes, os animais são esquizofrênicos – fato comprovado. Considero isto normal? Caro! Eles são naturais, são como a natureza manda, sem respeitos, sem rodeios. Nós, humanos, é que somos contra. A favor estamos do taxativo DMS¹, dos redutíveis códigos do CID10² restringindo à números nossas loucuras.
(Meu diagnóstico: Disfunção Aguda do Padecimento Poético Não-Genético Pré-Nascença. CID:  Aleph  ∞ . + 1  – Doença não medicável: necessita afastamento incomensurável.)
Por que este modo de proceder? Quem são os grandes culpados de estória? Nossos sentimentos e sensações?
Em toda sua pressuposta irracionalidade, os animais são mais sensíveis do que a gente. São parabólicas inescrupulosas, andando, rastejando, nadando, voando pelos seus dizimados terrenos, os quais não são perfurados de buracos imaginários.
Eles são completos, não discretos, retos. São tétricos? Não. Fazem aquilo que podem dentro de seus limitados limites. E nós? Nada fazemos dentro de nossos ilimitados limites. Se nos tornamos perfeccionistas na bebezisse, somos nossas mães desde o nascimento. Somos nossos ódio e amor. Somos nossos Tudo e Nada numa mesma pessoa machucada.
1: DSM: Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders
2: CID10: Classificação Estatística Internacional de Doenças
***
Ciente estou de que minha dor irá embora ao florescer o meu amor – amor diferente do Ideal de Amor, pois consiste num amor ideal, verdadeiro, altruísta e egocêntrico no inteiro.
Tento tanto me proteger que canto mentiras para enganar o amor dos Outros, entre este tanto, amo muito e muito amo quem não vejo. Mas o meu altruísmo, farto preso aqui dentro deste peito, está com medo de se mostrar.
Preciso primeiro (ou segundo) crescer, a fim de no externo amar a mim, a ti, a ele, a nós, a vós, a eles? Aí está a minha cura, longe do raciocínio já muito gasto de dor de horror. Minha vida espera tácita este acontecimento tão… Tenho que falar! Falar para o mundo que eu também sou o mundo e dele gosto de fazer-me parte.
***
Brotando a noite, um amor calmo começa constante a desabrochar. Escrevo perguntas em suas pétalas infantes, com infantil hebefrenia elas respondem em neologismos. A criança em mim apreende compreende e traduz para a velha ignorante – Quem sou, posso ser ou virei a ser neste breu pouco ideal? Ainda minha mãe? Ainda minha filha? Sim e não. No igualmente sou (posso ser, virei a ser) o Eu, só e mente.
Logo me faço, no momento, o meu amor ideal, aquele cujo objeto também é eu mesma.
Logo minha auto-estima cresce, minha falta de estima adormece, porquanto forte fortaleço na madureza, na dureza. Breve conseguirei proteger-me no fora deste casulo sem furo.
***
Sou minha metáfora.
Sou a magreza engordando da força quente que cai no vazio frio do renascer.
Sou a voz que tento protela no aparecer.
***
Quando compartilhamos do estado tranqüilo, minha voz ideal reaparece na corroboração entre o Eu e a Natureza. Assim e pois, o Eu relaxado fala de bebês, filhotes; encanto-me com o gosto de vê-los brincar. Cinco (ou mais) sentidos ávidos por informações, estímulos da Mãe Ideal, do amor. Eles são como são.
São uma de nossas mutações genéticas? São novas combinações? São novas interações? Não, são novinhas pessoinhas no aprender a viver. Olhando o mundo com admiração poética, olhando a vida com esperança das possibilidades.
Possibilidades sobre as quais voei e no agora envelheço. Envelheço porque meu cerne é novo enquanto a carne perde seu vigor – isto sim é o sumo supremo envelhecimento.
Ganho cada vez mais horas onde a brincadeira não se faz presente. Ganho presentes de seriedades. Minha vida está tão sisuda, tão antipática, ao ponto de só me permitir sorrir para crianças. Elas merecem sorrisos, não usam disfarces nas faces feito adultos. Adultos encapotam-se em egos inflados a fim de conseguir sobreviver neste árduo árido terreno que é o viver. Não condeno, entendo.
***
Quero saúde, ganho velhices.
Quero paz, ganho berros.
Quero voz, ganho mordaças.
Quero alívio, ganho cargas.
Quero meninice, ganho dentes cerrados e uma boca fechada aos risos e guizos das perdidas brincadeiras.
(Só)soçobro-me em conformações.
No para sempre serei um bebê dolorido na procura pela Mãe Ideal, desencontrada na oferta, pois a demanda foi excessiva. No para sempre serei uma voz perdida e achada, voz de luta de brisa de canto de concreto é de certo extraviar-se e deparar-se escondida e exposta. No para sempre serei a velha e a menina cantando contos encantos no uníssono do coral amigo concebido como parte de mim.
Sou no para sempre e sempre fui pássaro livre, que de tanta liberdade cansou, pousou, foi pego, engaiolado e hoje persiste na luta pelo seu Eu, o Eu Mesmo – mesmo esburacado.
***
Já que não tem jeito, deste jeito sem jeito, grito bem alto para escutar-me de bons fatos. Minha audição anda apurada para os bons atos.
Ajo mais no ainda e penso menos nos de sem solução.
O diálogo entre minhas partes permanece no perene. A moça vai (trans)formando-se num forte fortalecido na voz, e eu vou até o forte reconhecê-la como sendo eu mesma. A velha nina o bebê e a paz se restabelece no dentro. No fora apenas utilizo o respeito no ato no fato e no então paro de gritar. Consigo-me no pensar baixo e indolor. Em tom de prazer minha carne fala com o mundo e dele eu gosto – degusto o gosto de fazer-me parte deste atrito miraculoso.
Da realidade extraio verdades temporárias, assim como das pessoas que nela estão. Posso extrair-me me doando. Aprecio este estar de bem com o relativo. No absolutismo onde vivi as verdades eram absolutas, contudo, não havia em absoluto a minha real idade.
Saio do casulo para voar e quero. Quero-me no querer juntar-me aos outros.
Suave, canto-me em suavidades.
Suave com a vida que mereço, suave com a vida que me merece. Suavemente percebo que a vida merece. Percebo ter o que dizer. Percebo ter o que aprender.
Usando-me de apreços, ouço em realejo uma qualidade aparecer: a humildade para-com-perante a realidade.
Usando-me de estimas, a latência das defesas começa a desaparecer. Manifestadas, sem ser pisoteada, capacitam-me a viver.
A moça, meu ego, singelamente surge forte daquele forte e sem preconceitos. Afinal, quem seria eu para cogitar o pré-conceituar? Visto que de um pouco de tudo experimentei e menor do que tudo fiquei.
***
Assim sendo assim, já que não teve jeito, tive de renunciar o Perfeito.
Assim sendo assim, depois e pois fui galgando a conquista dos meus muitos, muito desejados diretos…
…Ah, o quê? E os animais? São esquizofrênicos? Sim! Eu, tu, nós talvez sejamos ou poderíamos ser. Porém a cura não mais me parece tão milagrosa assim. Junto ao crescimento do adulto vem a cura emocional – a racional não é necessária.
Aliás, a minha voz (in)surgiu? Todas (in)surgiram e cantaram em cada canto de cada verso. A voz imediata que vos fala, a voz engelhada que falou, a voz deslizada que falará, elas são minha voz própria, são minha própria voz – poética prosaica retórica reflexiva ativa. Há ainda aquela voz calada falada no presente onde sonho, anseio, odeio, amo, choro rios e sorrio.
Uma voz: Surte!
A minha voz: Não! Não! Não!
Quero-me simples, quero-me simplesmente ser aquilo que de meu ego sair. Se vier um riso, eu acolho. Se vier um cisco, eu recolho. Se vier um choro, eu acolho. Se vier um engodo, me recolho. Se vier uma flor, eu a-colho. Por hora não me encolho. Acolhendo-me posso acolher a vida, porque nunca me senti tão viva quanto no agora.
A Mãe Ideal foi desaparecendo, cedendo o lugar à mãe que tenho e amo, mas que entre o tudo é cheia de defeitos acolhidos por um Eu o qual também não é Ideal.
Alívio da imperfeição. Como é bom errar e estar viva para consertar!
***
Cheia de esperança, embora no ainda com parcos passos, passeio passos pesados, pragmáticos, passos passando pé ante pé ante pó na direção da realização. Isso é passado é presente é futuro, ao passo que no real cobiço caminhar e caminho destinando-me bem longe daqui.
Os passos em destino ao Mundo são lentos. Dependem do querer, daquilo que se quer, de uma Sociedade, de uma real idade. Dependem de quanto tempo passou-se sem treinar estes passos além de complicados.
Ressalvo-me: sou voraz. No às vezes, por vezes, ando rápido demais. Mas mesmo caindo continuo, saio por uma brecha, estou certa de conseguir-me no chegar ao meu rumo.
Cubro-me com rituais para proteger-me. Em poucos, pouco em pouco, eles vão desfazendo-se nos passos que me adentram no fora.
***
Encontrei a mãe, a filha, o amor, a verdade, a voz, a real idade, – sem idealizações socráticas – na prática adquirida na integração das minhas partes em interação com a vida.
Karina Viega
Published in: on 26 de janeiro de 2011 at 3:00 PM  Comments (13)  

A minha Mãe e a Mãe em mim


Um modo do sinto-me sustem-se num suspenso
É o brado de um encontro de vozes
Concerto número dois de um diálogo
Comovente pela expressão dos corpos atrozes
Palpitantes no quente do momento
Colidindo-se frontalmente na mesma ferida
Falo daquela que me sufoca a garganta com correntes algozes
Assalta-me as defesas com uma boa comida
(Co)rroi-me o coração a cada sopro do vento
E chora escondida se anuncio a partida

***
Mamãe

Na minha infância
Vívida de veemências
Não houve errados ou certos
Talvez algumas faltas ou excessos
Não fui obra do meio, apenas, não
E se ela se culpa por mim desde então
Desculpe-me
Sempre fui mais minha do que dela
Mas o ser-me sendo-a perpetua-se
Em meu eu esparramado de repleto
Embora a espantando, quero-a por perto
Somente por um inteiro de vida.

***
A Criança Querendo

Minha mãe de gritos e cantos
Meu acalanto de consolo
Por este Mundo meio morto no qual ela me colocou
Caso ainda posso, dou-lhe um abraço
Acaso não, dou-lhe flores para ornar os espaços
De sua memória no sempre ardida
Quando preciso do antigo colo
A proteger-me da queda, da briga
Quero que ela volte inteira, não perdôo sua ida
Quero, preciso e quero acalmar-me
(Re)colocando-me naquele útero onde eu dormia

Ao abrir os olhos, via o magma o calor o vermelho
Era o sangue dela ou meu sangue que corria?
Não sei, estamos fundidas
Unificadas num único ponto
A partir deste construo uma reta
À superfície ligando-me
Mas não quero lidar com esta
Quero a infância por enquanto
Quero instantes de infantes deleites:
No peito o leite (in)surgia
Farrapos faziam-me um manto
Galhos de árvores escondiam-me
Minhas asas voavam sem medo
Pois dedos afagavam-me aconchegos

Entre-tanto meu corpo cresceu
E ainda permaneço procurando o meio termo
Entre ela e eu, encontrei meu outro – a poesia
Entre o suprir-me e o supri-la, encontrei o suprir-se
Entre o vício e a abstinência, encontrei o amor
Entre as coisas que me cabem, onde caibo, onde entro
No constante peço forte um favor
De joelhos ante ao Tempo
Rogo-lhe não levá-la antes de mim
A ordem natural é assim
Entre-tudo nem o chão me sustentaria na dor
No só restaria embarcar-me com meu altar vazio
No rumo sem fim à terceira margem do rio

***

De Filha Crescendo para a Mãe

Mãe,
Diferentes modos do querer nos veio de encontro
Não conseguíamos atingir o em comum
Havia quebrado-se nosso encanto
Procurei em cada canto de canto do tempo
Unicamente achei meu crescimento
Procurei em mim a solução
Procurei tentar encontrar em ti
Nada de sossego
Tive que me diminuir
Precisava conter-me numa comunhão

Logo um novo sentido formou-se
Fez do cansaço uma realização
Fez da realização um existir
Limitar-nos, respeitar-nos
Foi a fórmula de resolução

As vontades desfizeram-se do Sim e do Não
Criou-se um meio termo
O contigo e o comigo formaram o consigo
Éramos uma terceira pessoa
Um novo indivíduo
Um próprio nome próprio
Sem caráter ambíguo
Tornei inconsciente o meu Eu onírico

Antes e pois, entre nós,
O espaço crescia na ausência de tempo
Porém no espelho vi algo além
Vi meus olhos brilhando de bom intento
Agarrei a chama dos meus dois sóis
Sabia necessitar deles para suprir teu vazio
Eu emanava luz infrene para tua carência
E o que consegui? Ofuscar-te
Enquanto tentava dar-te vida crescendo-me
Originei tua retração
Teus olhos apagaram-se
E os meus fecharam-se
Num eclipse de exaustão

Depois e pois,
A complacência em teu reflexo ascendeu
A complacência em meu reflexo surgiu
Espelhando-nos
Notamos comungar a mesma imagem

Quebrando a cabeça completou-se a montagem
Éramos um sentimento tão único quanto à própria criação
Sem grandes ofuscamentos no agora
Meus dois sóis possuíam donos, um meu, outro teu
Suave, falou a expressão:
Obrigada!

Teu olhar fez-me de um contínuo espaço
Não mais entremeado de longínquos vácuos
Mas sim de pequenos vazios, dores, alegrias
Eu finalmente poderia existir-me em ti como ponto
E este se fez meu espelho: tua face
Transformei-me por reflexo meu ponto de descanso

Compreender-me em ti foi o meu limite
Aceitar-te em mim foi o amar-te

A poesia, meu Outro, gerou-me em ser-te-me.

***

A Mãe em Mim

Na garganta da Terra
Presa no útero do magma – Sou Vulcão
Berro em erupção,
Quero a minha mãe!
Quantos anos eu tenho?
Duvido-me de tenta memória
Se me olho, vejo-me toda
Toda a minha estória
Do meu suposto nascimento
Ao futuro do agora
Rugas na velhice da infância
Sabedoria num corpo sem substância
Cansado encurvado magro
O suor já não me sai
Sem lágrimas escassas

Vejo um brilho no olhar feminino: o potencial materno
Até nas pequenas meninas brincando de bonecas,
Ele está ali
Como uma draga a anunciar: Um dia serás mãe
Eu também nasci assim
Aonde foi parar o meu brilho?
Na não aceitação do poder masculino: o eterno filho
Na não aceitação do poder do bebê: um único indivíduo

Não sou cuidável pela prole do porvir!

No estar-me preciso de mães, mas são mãos que me vem
No buraco que me restou sendo apenas filha
Meu Deus passou de homem à mulher que contém
Esse buraco preencho com imaginários rebentos
O modo de ser-me adulta por hora me convém
Embora simples fora o acalanto de outrora
E complicada seja a adultice perdurada de demora

Meu caleidoscópio desfez-se pelo medo da idade
As faces se uniram
Cantam juntas em uníssono
Destaca-se um agudo
Que é a minha voz
Ouço-me com carinho materno
Entre o ser e o estar
Quero o primeiro no eterno
Tanto sou – então estou presente
Porquanto estou – então sou ausente
Portanto Sou – só e mente

Infrene mente disparada num infinito ventre
Jornada rumo ao ponto do soluço, a outra solução
Viajei por várias possibilidades
Nenhuma me cabia por razão
Eu já havia crescido. Grande
Tão grande que o berço ficou pequeno
Cadê mamãe para me frear?
No espelho, não me vejo mais em seu reflexo
Outra pessoa fala meu nome

O tempo avançou num espaço uterino

Chegou a minha vez de englobar
No parto de um adulto
Consumir-me numa gestação
A simbiose permanece
Como filha, quero ser materna
A poesia aparece: Criação
A ânsia cresce
Tornar-me grávida do todo: perfeita união

No entanto o medo permeia-me de perguntas
Neste corpo que cria a gravidez da mente
Grito em uma cólica menstrual
Sangro-me de ver-me assim
Não fecundada
Desejando o mais puro de mim
O cobiçado uno não se proclama
O óvulo perde seu oposto e sai
Em lágrimas vermelhas
Rubrantes de intensas
Causando-me dor e alegria até cansar

Compulsivamente crio,
Escrevo-me…

Karina Viega

Published in: on 13 de janeiro de 2011 at 10:12 AM  Deixe um comentário  

A Mãe do Todo – Dentro, Sob e Sobre


Esta compilação faz parte de uma série na qual também constará “A Minha Mãe e a Mãe em Mim”, “No Dentro e no Fora” “O início – O Causo do (En)Casulo” e um poema de reconciliação cujo título ainda não defini.

Caminhando…

 

Regressão ao ventre (Dentro)

Presa na minha prece perene

Dou a-Deus a eternidade do movimento parado

Antes, querendo-me de alívios, escolhia a cama como abrigo

Hoje, voar não mais finjo

Enterro-me no centro da Terra a ver se renasço

Ponho-me encolhida, por-tanto regresso

Viro um feto cujo útero procura em perpétua sina

Embaixo da Terra grávida de mim, aborto os dias acima

 

Brigada com a Mãe Natureza, rejeitando-a

Porém a querendo em mim pulsando

Nestas veias cortadas extrojetadas de medo

Do nascer sozinha em um planeta pouco perfeito

Onde terei ao menos três vestimentas

A mãe, a filha, a mulher

Ao passo que no agora sou apenas a Santa

Sem ter feito milagres

Nem aparecido de nome qualquer

 

Sou no ainda a Louca quem morre pelos pecados

Tanto os próprios quanto os dos outros

Sou os Outros, sou Deus, sou o Diabo

No também sou gente, disso me esqueço sempre

Sou humana mesmo sendo animal

Se mostro os dentes: sou o cão vira latas com o lixo em frente

Se os escondo: sou a órfã deitada em posição fetal

***


Reflexão na gestação (Dentro e Sob)

Peço para morrer, acho que vou morrer

De tenta (in)certeza morro

E se morro, é na terra onde estou aonde chego

Entre-tudo já me encontro enterrada

Todos se enterram

Na cama na lama na merda

No sonho no álcool no colo

Fuga constante com a mesma desculpa: cansaço

Na alegria do nascimento nasce a tristeza da morte

Basta ser humano para haver esse enlaço

Logo atrás vêm os infinitos inatos

Dentro de mim, de ti, de nós

Variados de raça, língua, cor, dor

Humanos com seus Universos exagerados

Expandidos por um átimo de segundo

Por um átomo de espaço

 

Espero impaciente o meu nascimento, o meu cordão arrebentar

Puxo com toda força, a Mãe Natureza me quer de filha

Quer-me de forma pequena, brincalhona, simpática

Mas não sou o vir a ser, sou o que posso ser:

Ser-me ainda apática

 

Preciso de colo, acalantos de chuva molhando a janela

Ouço-me do lado de fora, há sempre alguém na porta

Esperando atendimento no dentro, num algo que desabrocha

Flor miúda, talvez uma rosa com espinhos e pétalas discretas

A Mãe Natureza me olha, com carinho eu a tomo

Em meus seios vazios, em meu colo magro, (re)tomo-a para mim

Brigamos. Reconciliamo-nos

Ela gerou-me livre, eu me prendi

Ela há de libertar-me de enganos

***

 

Decepção pós-parto (Sob)

Emersa do ventre do enterro, mergulho na civilização

Choro. Não no em vão de chorar

Quero enterrar-me de novo e de nova novamente me desenterrar

Além desta sub-sobrevivência: comer respirar defecar…

Ser tão humana de necessidades tão primitivas me revolta

Enquanto viva e mesmo morta

 

Perseguições veladas, disfarçadas de boas intenções

Pessoas engaioladas em suas próprias casas

Pessoas hipnotizadas por vitrines em televisões

Fechaduras nas portas do apartamento

Grades nas portas do discernimento

Olhos mágicos, olhos de vidro

Olhos a penetrar o pensamento alheio

Olhos a invadir sensações

Todos parecem suspeitos

Todos parecem prestes a machucar

Todos machucam uns aos outros prontos a negar

Ter praticado de premeditado suas pérfidas pretensões.

***

 

Crescimento na con-vivência do tempo (Sob e Sobre)

Pela minha janela gradeada olho a Lua, olho estrelas, olho o Mar

Isentos de delírios paranóicos, eles apenas são, não me atacam

Servos de seus próprios ciclos, servos de seus próprios tempos

Não existem porque eu os quero assim, apenas existem em si

Livres de nossas decisões cheias de olhos

Livres de ti, livres de mim

 

O mar veleja ao vento trazendo flores miúdas

Como estas, no também sou miudeza

Criança berrando pedindo o seu saciar

O alimento anda escasso, pouco sobrou para dar

A luz solar traz um sentir-se-me incerto de futuros

E o bem estar no presente afunda devagar.

 

Quero permear o tempo

Tanto tempo passei entre passados escuros

Quero perder o meu tempo tão único que nem eu o sei

Não há como medir kairos(logica)mente

Não sei respeitá-lo, não sei analisá-lo, não se sei

Ao menos encontrá-lo em algum relógio existente

Meu tempo não obedece ao natural

Não obstante eu também seja natureza

Nem com rudeza embarco no kronos ideal

 

Tento alterar-me em noites viradas

A Mãe Natureza cola meus olhos na fadiga

Não venço, não reitero

Vou num vento galerno

Entrego-me a sonhar num eterno

(Re)fazer-me de vida cujos caminhos eu quem escolherá

Embora na tentação do desvio

A Seleção de sobrevivência conduzir-me-á

No rumo que sai da fantasia pura

E chega ao império da realidade crua

 

Entre-mentes, entra minha mente

Descolando meu olho direto na vista dura

Num despertar desconsolado de memórias

Desrecordando-me do sonhado

Acordo em minha demora

 

Mãe, você sabe seu tempo. Você sabe o meu?

O meu esgota-se com seu olhar materno

Você pariu o Mundo o qual pariu Deus

Mãe, você é mãe até daqueles que lhe desconhecem no completo

Em algum momento serei capaz

de debruçar-me horas em suas horas

Sem cansar, sem voar, sem pensar no tempo findado

Quem é você afinal?

Reticências de um enigma não desvendado

***

 

Discutição da relação (Sobre)

Tento num desespero decifrar a Mãe Natureza em suas dicotomias

Num livro de páginas coloridas pintadas por seus filhos e filhas

Onde preencho os cantos brancos com o meu canto

Onde coloco sua síntese em minha sintaxe

Onde me paraliso diante de anagramas verbais numa catarse

 

Sua gravidez tão feminina a tornou incompreensível

Eu também sou menina, maquio-me, visto roupas da mãe

Sua veste cobre a Terra em costuras de rios

Sua gravidez parece eterna

Mas temo o fim que a impõem

Temo seu estado tão delicado

Sua placenta outrora forte, agora frouxa

Sinto-me solta

Ela está abortando-nos ou nos deixando crescer?

E que filhos foi ter!

Destroem-na, porém… Bombas!

Criou filhos ambíguos: matam e se suicidam

 

Ela tudo gera, tudo consome

Na medida em que a comem sem fome

 

Estará cansada da não perfeição?

Quando abrir as pernas sairá todos os mistérios do Universo

Quando abrir as pernas sairá toda a nova vida que quiser gerar

 

Nós não somos seu espelho, talvez um roto, todo quebrado

Sua face reflete nas partes, posto que em pedaços

 

Sua dualidade… Grito: Mãe! E eu apareço.

 

 

Karina Viega.

Published in: on 10 de janeiro de 2011 at 7:56 AM  Comments (2)  

A Estória que Caminha também Finda Sozinha – Não voltarei a dizer Bença, Vó.


Assim sendo sempre assim, mais uma vez era uma vez, a estória recontada reapareceu-se nos causos, vistosa q’nem chuva de verão adormecendo pássaros.
Interrompeu-se a tentação de semear as idéias (re)colhidas em árvores, coloquei todas num caixão, o gosto de fazer brotar frutos foi-se entrando em extinção. Tudo parecia um Nada confuso. Tão confuso que no ninho não cabia mais o passarinho, que no canto não cabia mais a saudade, que no tempo não cabia mais a eternidade, que na minha vida não cabia mais a sua morte, vovó.
Outrora mangue, outrora jardim – uma lembrança sua casa virou.
Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho e voou voou voou voou…
***
Minha avó de reminiscências, macarrão, feijão e complacências, será que no antes apaguei sua existência? Durante muito congelei sua idade, faz pouco meu reconhecimento dos seus anos de verdades.
No princípio sua morte quase não me tocou, eu não me podia no acreditar. No depois sua voz veio poetizar-me e uma saudade insolúvel apoderou-se de ser-me. Afoguei-me.
Ela ainda é minha jóia querida, guardada tão lá no fundo das estrelas…
Tão presente na memória está ela em mim.
Tão ausente de presença está ela aqui.
Seu tempo comigo terminou. O tempo fez-se de um vazio em meu peito.
Afinal, quem é que se foi? Um pedaço de mim voou junto a ela.
***
Por desconhecer o sofrimento descente, esperado pelos desconhecidos, parentes e desconhecidos-parentes, coloquei-me entre parênteses. Afogada em perdas mais do que internas, em um choro de uma cachoeira de lágrimas inversas, imperceptível na invisibilidade externa, eu parecia indolor a tudo e a todos.
Banhei em água fria meu fogo. Somente repetia: a morte não mais me cabia.
***
Vovô foi o primeiro a voar. Às vezes ele pousava nas lágrimas viúvas de minha avó. E agora, aonde vovô pousará?
***
Vovó parecia uma idosa criança. De aparência viva, de olhinhos arregalados sedentos de uma curiosidade sábia – igual à do gato que se esgueira adentro da casa.
Inebriada, quase atontada, tudo já era demais para ela. E o pouco que se fazia faltava-lhe. E os amores perdidos faziam-se em poesias, minuciosamente recitados dia a dia, enquanto sua pouca memória restava-lhe.
Mesmo em sua carência crescente, crescente como o propósito da Lua em sua minguância, certos lampejos de gratidão iluminavam sua lucidez, fazendo saltar-lhe palavras de afago sobre os entes atormentados. Quando a Lua não tinha mais espaço de crescimento, a carência materna gritava-lhe e sua dor esmagava-lhe-me sem pendor à leveza.
***
Eu ainda reconheço minha jóia querida no através de uma poesia sobre infância perdida, realmente perdida.
***
Depois e pois arrebentou-se a hora de não reconhecer parentes, de não reconhecer seu presente, de sumir-lhe partes passadas num desmanchar de lembranças doídas. Perdendo-se no antes que lhe sobrara, minha avó encontrou o pedaço intacto daquilo que mais lhe faltou toda vida – restou sua mãe querida quem a doença não apagou.
Entre-mentes, sendo na doença ou saúde, o tempo dela amiúde sempre fora diferente dos demais, disso lembro-me bem desde em que por gente me entendem, o dela estava em algum lugar do passado (eu também já nasci nostálgica do ventre). Logo seu presente extinguiu-se completamente, deixando-lhe intermitente no atrás.
***
Ainda escuto sua voz envelhecida, cantando no fazer do almoço, ao ritmo da pressão do feijão, respondendo Que Deus te abençoe o Senhor é convosco, choramingando por algo que queria sem alvoroço e recitando Olavo Bilac: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!”. Ouvi-las, porém, ela podia.
Cachoeira cachoeira cachoeira de lágrimas, cachoeira escorria-lhe pelas saudades da aurora de sua vida. Mas sua na sua tristeza o sofrer transcendia, desaguando no amor.
Amor em excesso a levou. Primeiro para vida, depois da vida. Só eu sei que isso ela sabia, “pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e entender estrelas”.
***
No hoje me permito lançar lágrimas em cachoeiras. Eu, sua neta, quem como ela, também sempre escutou estrelas.
É um dom de família – alguns diriam assim. Não é dádiva nem fardo, é apenas o possível dentro de mim.

 

Karina Viega

 

Published in: on 3 de janeiro de 2011 at 11:43 PM  Comments (1)  

Complexo de Electra – Miudinhos


Cresci, tenho cartões de crédito
Voei e desapeguei-me da infante meta
No agora sublimo a ausência de falo
Na fala em penetrâncias poéticas
Karina Viega
Published in: on 3 de janeiro de 2011 at 12:55 AM  Comments (2)  

Fiz Pouco Caso (III) – Faço um Retrato em Retratação.


O acaso de minha imaginação fez-se caso sério, seriíssimo pouco escasso, rico rico cheio farto pobre de mim num agora mesmo de poucos traços.
***
Ainda semente, vou num caminhar sem fim. Sem me importar com chegadas, vou, apenas vou, assim. Assim simplesmente navego quase, quase que à deriva de mim, submissa ao fluxo corrente de meus pensamentos – ora ressaca, ora maré alta, nunca água rasa.
Encontro lá no horizonte Sol e Lua namorando amarelo. Amarelada igual aos girassóis, Van Gogh e a cadeira, com avergonhada ignorância, pergunto: Resolveram se encontrar no cansaço de suas rotinas? Sol e Lua sorriem, Rotina? Que rotina? Isso não existe. Aceito a reposta em sua incoerência, não como verdade absoluta, apenas como provisória lição, apenas no hoje. Amanhã, quem sabe, talvez eu deixe a taça de loucura intacta sobre o tampo da mesa e acorde outra.
***
Não sou, no muito, uma outra pessoa, apenas aquilo que sai de mim é que difere do dentro, quase irreconhecível para o fora, porquanto me fantasio com cachos de banana já apodrecendo dependurados na cabeça. Sou um ponto e vírgula, desconheço-me ponto final. Faço um parágrafo, mudo o assunto sem recomeçar sem resistir sem resignar; modo de sentir-me aliviada das dúvidas em dívidas internas. Logo, externa, proponho-me uma novela ou um jogo de futebol. Sou um algo se esforçando no estar leve – estado de paz externado, porém não perpetuado, contenta-me isso, isto, aquilo… Busco a condição de contemplar (contendo-me no procurar de afrescos) a plenitude nua da natureza crua, das miudezas, dos seres, do Tudo e do Nada.
***
Lá fora o vento está forte, chove chuva-choro divino, chove duro, chove pedras, não chove colos, não chove cantos, não chove carinhos. Chove aparências.  De tanto aparecer, desapareço nesta fantástica floresta.
Quero uma bala… algo doce para amainar-me nas voracidades: dos cremes, dos toques de depilação, das unhas feitas incessantemente, as quais eu como, não por desleixo ou preguiça, é pelo furor de pássaros a corroer-me.
Saio para banhar-me nesta chuva que consome. Volto encharcada de água de lágrimas de fome. Quero meus pés descalços, minha vista grossa, desanuviada das nuvens carregadas de imaginações.
Lá fora está frio, aqui dentro restam traças. Elas roem remoem e resmungam com meu cérebro numa língua primitiva: o anterior ao ato.
O antes das palavras me morde no peito. Antes eu ficasse excitada, rósea como rosa desabrochada. Fico é amarela, feito os grãos de minha espiga dorsal, esperando-me sentada na cadeira amarelada. Fico é roxa, feito a loucura no fundo da taça. Fico é verde, colhendo as folhas secas da árvore que pretendo ser.
Entretanto, não sou de estática, faço-me de estórias ornadas. Fantasias sonhadas enquanto acordada, fantasias adormecidas. Dou um sonho para parar de fantasiar-me, pois temo. É a mim quem temo, é por mim que tremo, é de mim que saio correndo e buscando-me, com um medo infantil das sombras na parede do quarto.
De minha mente sinto: ela sente calada aquilo que sinto.
Trocas dinâmicas do uno com o plural – transitando entre um e outro pode ser que eu me encontre.
Componho-me em dicotomias (oscilar entre pólos opostos é de mais fácil solução, um jeito de anular-se a dúvida gerada no entremeio da opção). Amo-me numa estrofe amena, odeio-me na seguinte com fúria, sou teórica com indiferença, mudo de assunto tão rapidamente ao ponto de acabar no perder-me de mim. Mas, entre os versos, procuro meu reflexo – trabalho incessante constante, quase – quase obcecada, eu preciso, eu espero, eu preciso, eu procuro, eu preciso… Retornar-me, encontrar meu eixo, meu ego, meu apoio, algo que cheire à minha essência, à minha efervescência.
A catarse realiza-se pura e genuína, sorrio e choro ao mesmo tempo, molhando de prosa o verso. Disso não faço pouco caso.
Quero ser alguém no tudo, contudo, no muito de minha imaginação eu sobrevôo as arvores do mundo. O pouco caso aduba abundâncias de musgos no muro. Preocupo-me, afinal, no também não quero excesso, tampouco poucos restos, quero um tanto além daquilo que possuo agora: o papel e a caneta, conjunto líder desta revoada revolta revolução.
***
Transformo-me em pássaro voando pelos ares de Agosto, quando as folhas não são tão verdes quanto fico à colher suas securas, são leves e entregues ao vento.
No inverno de Agosto nasci prematuramente. Antecipei-me, caso contrário eu brotaria numa flor. Renasço de tempos em tempos, sem prévia mensura de estação, para habitar-me na poesia, dividindo-a com versos, estrofes, insetos, fantasia e emoção.
Gostaria de poder falar sempre como eu falo com o papel. Ele não faz pouco caso de mim, ele apenas me espera ainda tácito intacto na sua brancura.
Moro na poesia e por ser-me dela não sou pobre, nem rica, sou somente ela, nem mãe, nem filha – somos o mesmo ser.
***
Preciso parar-me no pensar. Tenho que pesar o quanto de conhecimento já adquiri, a fim de ver se minha imaginação pausa no freqüente. Todavia receio. Receio-me em mim e para mim. Todavia (re)quero. (Re)quero-me em mim procurar-me e espero. Espero-me no meu retorno, sentada no couro morno da cadeira amarela entre os girassóis, enquanto Van Gogh mostra-me sua orelha na falta que dói.
Elucubrações tresloucadas exageradas empanturram minha mente cansada. Engulo tudo que vejo, vejo tudo que engulo e ainda assim não me curo desta patologia severa: a voracidade desconexa.
Perco-me nas noções do exagero, atinjo-me nas ausências de adequações. Onde estou realmente deveria-me no estar? Onde sou eu posso ficar?
***
Estou empanzinada, Chega! Não mais desfilarei faceira.
Refaço-me e retorno-me: apareceu a libido que tanto comeu, comeu o medo que agora sumiu.
(Em)fartei-me de ser sabiá sabendo-se sobrevoar sobre as copas do Todo. Acho já poder reconhecer-me neste algo ameno e doido perdurado nas durezas.
***
Vomitei a chave, o cofre foi aberto. Insegurança, impaciência…
Esperei meu tempo no demais, colada na unificação de mim mesma.
Estou ansiosa para ver o mundo lá fora, será tão diferente assim? Provavelmente é muito mais cruel do que minha mente que mente para mim.
Estou ávida, preciso fumar… Que se abra a gaiola!
Não vôo, não corro, saio devagar.
Descolo a remela dos olhos e acordo.
***
O acaso de minha imaginação foi-se desfazendo de seu caso tão sério. No princípio, senti-me pobre. Da riqueza pensei ter sobrado somente o passado – escondido de mim para evitar-me em lembranças fantasiadas, ardidas de boas e ausentes que são.
Aos poucos, com as memórias transitando livres de afrescos, com a imaginação amainada, veio-me outra riqueza: o meu amor. O amor desnudado em simplicidades, que esquenta pés e mãos gelados, que a cada segundo faz-me no diferente mesmo estando no igual, que a cada hora faz-me levantar da cama da queda da lama. Algo precioso, algo rico, o qual fala comigo e não de mim, nem por mim. Este algo foi aprendizado – ensinamento fio a fio de cada linha – daqueles acasos de pouco caso.
Onde os versos encontram-se comigo, eu sou eles, eles são eu. Juntos, somos inversos, crescemos correntes, diminuímos sementes e plantamo-nos nos espaços vagos do papel. Brotamos linhas de estórias minhas, as quais são repartidas na comunhão dos sentimentos de todos tão presos no dentro.
O passado, o imaginar, a fala pré-ato, pré-verbal… O amor.
A vida segue-se de carinhos e as fantasias despem-se devagar. Sem muito susto neste despertar – aparentemente inócuo, mas profícuo em realizar mudanças no quase sempre.
E para sempre sigo com mais uma boa recordação: a deste escrever quente escorrendo de minhas mãos.
Karina Viega.
Published in: on 29 de dezembro de 2010 at 12:38 AM  Comments (3)  

Fiz Pouco Caso (II) – Faço uma Retratação.


Confesso, fiz pouco caso durante muito.

Contudo cansei de ser sabiá sabendo-se sobrevoar

Acima das árvores do mundo

No agora (re)quero regressar-me em raízes

A fim de sair lá do fundo

Desta nuvem pesada perpetrada de imaginações

A qual me anuvia do Tudo

 

A espiga de milho que carrego em minha espinha

– minha espiga dorsal – Solta grãos

Quando olho para os girassóis de Van Gogh e sua cadeira

Amarela como o milho, não se propondo em pretensão

Onde sento aquecendo-me no couro morno

Para esperar-me no meu retorno

 

De tanto demorar-me decido

Entender a arte dos quadros emoldurados

Sinto tudo que posso, posso tudo que sinto

Mas somente na minha arte “os tudos” são unificados

 

A comida na espera por meus desejos de fome

E eu, ainda esperando-me insone

Com olhos arregalados feito os grãos (de)caídos

Solitária feito o milho

No claustro de sua espiga

Amarelada sobre a cadeira

De pescoço espichado feito os girassóis

Enquanto Van Gogh, em consternação por esta espreita

Mostra-me sua orelha na falta que dói

(Algo ameno e doido sempre perdura nas durezas)

 

Talvez e sonho, ter-me trancada num cofre

Protegida do acaso da sorte

Cofre cuja chave engoli com aflição

Resguardando-a num canto do coração

Já arranhei a garganta

Já enfiei a mão

Mas ao redor da chave ergueu-se um mosteiro

Se ao menos houvesse um cadeado

Procuraria um chaveiro

Resta relegar-me à cadeira amarela

Nesta espera, nesta demora, neste desespero

 

Conseqüências do acaso de fazer pouco caso…

Encorajada pelos girassóis, Van Gogh, e a cadeira

Hoje este carma eu encaro

Com as bananas já apodrecendo na cabeça

E com a sujeira numa cara besta.

Karina Viega
Published in: on 27 de dezembro de 2010 at 4:37 AM  Comments (3)  

Fiz pouco caso (I) – Faço um Retrato


O acaso de minha imaginação tornou-se caso sério

Ponho-me no sempre a escavar mistérios

Até mesmo num chão de asfalto

Se desenterro algum fato

Prontamente penduro-lhe

Penduricalhos pendulados

 

Acordo a vida em teatro

Proponho-me personagem principal de todos os atos

Abro as asas, mudo diálogos

O roteirista grita, finjo não escutar e invento

Frases de-acordo com o vento

 

Seria num difícil falar-me

Em lexicantes palavras parafraseadas

Prefiro mesmo as tresloucadas

Mas ainda não endoidei de velha à esmo

Ainda não endoidei nem de mesmos

 

Sou lúcida qual minha vizinha da esquina

Quem certo se sabe Joana d’Arc

Quem perambula armada de espada e estandarte

Com um olho no céu e outro em espreita esguelha

Desapercebendo o fardo de findar-se em fogueira

 

Tenho a lucidez canônica da Freira

Quem morre de fome, porém não consome

O fruto pendente da macieira

Quem definha, porém caminha

Rumo ao altar onde some

Numa oração de glória pelo ar que respira

Desapercebendo o choro-chuva de Deus por cada ser que expira.

 

Tomo uma loucura numa taça

E perdura a dura tonta tonteira

Com cachos de banana dependurados na cabeça

Desfilo faceira

Pensando chamar atenção

 

No fundo do copo de cachaça

Nasce a embriagada gramática

Órfã, adoto-a por enteada

Exploro seu trabalho infantil

Coagindo-a no semeamento da página

Espero brotar o delírio semântico fio a fio

 

Ter feito pouco caso foi mero acaso

Relaxamento puro

Adubando o crescimento de musgos no muro

Acaso não notei a estranheza de caçar afrescos mesmo no escuro?

No constante me consome uma inquietude

Vivo no inesgotável

E sou, no apenas, feliz de doidices

E no muito, descubro

Apesar disso tudo, também sou gostável.

Karina Viega
 

Published in: on 26 de dezembro de 2010 at 9:09 AM  Comments (3)  

E(s)vaindo-me em Fantasias – A Verdade Universal do Engano


No início os limites já falavam.
(nasceram logorréicos inatos, sem sequer necessitar o aprendizado dos grunhidos monossilábicos de um bebê)
Eu sempre precisei quebrá-los. Minha mente não aceita rédeas celas coleiras. Segurar a mim mesma na beirada é inimaginável.
Desconheço o que houve ao certo num passado escurecido por um revoar revolto de passarinhos, no qual procuro o motivo da abstrata pintura dessas mentiras, cuja existência renderam-me um existir tão falso que desapareceu, num abracadabra infantil, com aquilo que realmente havia.
Em um mundo tapado, de buracos tampados e ladrilhado de pedras-percalços, como saber quem eu era ou sou? Ao passo que destruindo este mundo eu sucumbiria de pesadelos, entreguei-me aos devaneios – Ser um ser fantasioso é minha defesa.
Enquanto as fantasias incham meu útero, choro a guerra interna na qual o amor atira palavrões e o ódio revida quase à altura. Não foi o tempo quem me envelheceu, foi a oxidação dessa luta.
Mergulhei em diversos mares a fim de purificar-me, auto-batizando meu corpo até a exaustão.
Logo cedo cresci. Feito um animalzinho sabendo-se presa fácil, aprendi a lutar. Afinal, precisava proteger-me das duas faces de minha melhor amiga – minhas supostas mentiras. Eu ainda desconhecia que elas se tornariam, um dia, minhas grandes verdades. Tudo isso doía numa alma desejosa de poetizar e profetizar. Tudo não cessou de doer.
Gostaria de despir-me destas ilusões e aparecer-me nua sob a luz da Lua. Quero brotar, deixar de ser eterna semente, desabrochar com pétalas brancas sem rasura. Ser-me aquém do físico, mostrar-se além das guerras. Ser é mais importante do que estar. Quero controlar esta fúria espalhada ao vento – mira sem alvo certo.
Entretanto as mentiras enchem-me com verdades, uma ilógica lógica a dominar-me.
Ao insurgir algum amor, desprende-se das minhas entranhas a voz do medo, passo a caminhar num irreal rarefeito, perseguições fazem-se contra mim, vozes falam-se me chamando. Depois e pois, num repente estrondo de uma Fuga de Bach, eu percebo-me apenas mais uma a fugir, tentando enganar a dor com o consolo dos poetas: as fantasias.
Nas profecias do passado entrevejo o futuro, mas o presente surdo fica mudo de terror enquanto, lá no fundo, eu ainda e somente cresço-me nos cantos das pílulas para dormir. Fugir parece o perfeito plano de reaparecer sem tanto tumulto, de passar o alvoroço, de voltar ódio ao sono.
Esconderijos faltam-me. Dormir é tão óbvio que não consta como opção.
Oculta, no escuro do quarto, ouço uma música de acordes em dissonâncias saído da estante, onde livros cantam fábulas encantadas e requerem releituras sem fim.
Igual a um pássaro, rodopio em minha gaiola prolongando a vida no suor, sem saber-me parar, sem entender razões e porquês. Talvez, se minha prepotência fosse relegada à ignorância permitindo-me responder “Não sei!”, o rodopio cessaria, a fantasia seria pendurada no cabide, esquecida no armário – e eu consentiria-me em ser.
Talvez…

Karina Viega

 

Published in: on 24 de dezembro de 2010 at 5:02 PM  Deixe um comentário  

Sobre Maçãs e Dentistas – Devaneios num Travesseiro



Meu travesseiro foi abduzido

Arrancaram-lhe as penas

Preencheram-lhe de delírios

Quando me foi devolvido

Passei a ter sonhos hebefrênico-paranóides

Os quais nenhum psicotrópico pode

Aprisionar numa polaróide

 

Acostumei-me a tal situação

Hoje conto ter sonhado

Com uma maçã em reivindicação

 

Beliscada por um rato

A maçã foi ao sindicato

Brigar por uma ida ao dentista

Descascando direitos

Angariou a visita

Porém este era desdentado

Nada pôde lhe desfibrar

Nem sequer uma mordida

Novamente ela pôs-se a descascar

Reclamações pelo o nada feito

Acabou-se atirada num cesto

Repleto de restos e defeitos

Cobiçado por crianças sem leito

 

Desrecordo o certo desfecho

Parece que a maçã escapuliu

Após anos foi encontrada

Boiando na pele dum rio

 

Sonho de louco esquisito

Sobre o significado

                  não reflito.

 

 

Karina Viega

 



Published in: on 22 de dezembro de 2010 at 8:05 AM  Comments (3)  

O Assombramento do Quarto de Descanso – Causo sobre desorror e desespíritos


Na época em que a casa ainda era jardim, duas coisas em particular muito me impressionavam: a bicicleta vermelha e o Quarto de Descanso, ambos pertencentes ao meu avô.

Vovô possuía um quarto oficial, no entanto neste eu nunca o vira dormir. Ele adormecia na sala, frente às velhas repetições de desenhos antigos. Porém seu corpo permanecia sentado imóvel, enquanto a cabeça, arqueada ligeirinha para trás, era a única a deitar-se, confirmando seu estado de adormecimento.

Outra opção de sonolento descanso era o Quarto, alcunhado com a palavra que expressa essa ação, cuja mobília consistia numa cama de jacarandá feita pelo meu bisavô, em quinquilharias feitas pelo desprezo dos demais moradores da casa e numa porta azul nunca fechada. Bastava eu ouvir um movimento de chinelas acompanhado por um ranger de madeira para correr e sentar-me, quietinha encolhidinha, aos pés da porta, posta a observar o ronco de vovô. Assim era sempre assim, pois vovô exalava estórias até no ato de dormir. Eu afogava-me junto à porta.

Assim era sempre assim até vovó enviuvar.

                       

                        Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho

                        e voou voou voou voou

                        A menina que gostava tanto do bichinho

                        chorou chorou chorou chorou…

 

A casa já transitava entre jardim e lembrança quando me acomodaram no Quarto de Descanso, a fim de preencher vovó. Todas as noites eu ouvia chinelas rodeando o Quarto e escondia-me embaixo do cobertor. Eu queria vovô ainda vivo, porém vê-lo redivivo assustar-me-ia.

Algum tempo depois, criada a coragem de entreolhar pele fresta do meu esconderijo de algodão, descobri que as chinelas rodeantes não eram de meu avô, mas sim pertenciam à insônia de minha avó, quem vinha noturna ao Quarto de Descanso, em busca de afogar-se em lembranças.

Karina Viega

Published in: on 21 de dezembro de 2010 at 3:18 PM  Deixe um comentário  

Engendramento de um Rebento – E uma Nuvem de Cogitações


Doía-me um nó (en)talhado
Seria semente? Seria catarro?
Consultei-me com um pássaro
Confiei em sua sensatez
Diagnosticou-me imediato
Gestante de súbita gravidez
 
Prudente, fiz o pré-natal
Ouvi a força de um coração batecundo
Nem puro, nem imundo
Contudo não recebi mensura de tempo
Quando o parto aconteceria?
Em qualquer incomensurável momento
 
Veio Lua
Veio Sol
Agarrei-me num fio de luz
A fim de aquecer-me nas horas passadas
Pensadas pesadas
Enquanto eu ainda estava
Com o (a)feto poema em gestação
 
Agora, recém nascido
Mais silêncio do que grito
Resguardo o período
Dispondo-me no amor dos troncos
Da árvore onde embalo o rebento
À mercê do balanço do vento.
 
Preocupa-me seu crescimento
– fardo carregado por mãe –
Pois basta que ele diga: você…
E o modo poético desvia-se
O modo perplexo ressalta
Então só rosas entenderão
Suas reticências da fala
 
Talvez ele se transforme
Numa borboleta ou sapo
Em anjo ou diabo
Pouco importa a transmutação
Desde que se mantenha desabafo
 
Quem sabe certas mãos
Copiosas o multiplicarão
Em escritos enxertos ditos
Encharcados de pasticho
Mergulhados de emoção
Pode ser até que suma
Minha própria assinatura
Sob o arrombo de outra postura
Que lhe faça mais ventura
 
Seu fim não pré-vejo
Afinal desconheço
Suas pendências de propensão
Se irá enterrar-se numa gaveta
Integrar-se-á numa compilação
Será sozinho perpétuo
Voará livre liberto
Dançará numa canção
Morrerá engolido abatido
Ou se acaso restar-se-á numa reles menção
 
Pouco importa a sucessão dos fatos
Desde que mantenha o desabafo.

 

Karina Viega

Published in: on 20 de dezembro de 2010 at 11:50 AM  Deixe um comentário  

Uma no Todo embora no Refúgio do Corpo – Tentativa de Auto-Construção.


Outrora o tempo não era.
            Fez-se dia, fez-se noite, e eu continuei a circular em torno do meu cordão, mesmo sabendo que encontraria o vazio de meu umbigo.
            É no buscar-se que somos construídos.
            Uso um disfarce no Nada, porém em tudo apareço. Sou escrava da minha hiperlógica. Brigo contra o tempo comum, contudo respeito os alheios intervalos internos. Entretanto vomito o excesso, é a Retroalimentação.
            Para ser auto-suficiente, exercito a fagocitose de meu próprio corpo. Em algum espaço faço-me, como-me, respiro-me até que me falte ar.
            Para o estado perfeito, evito-me. Em rodeios, reflito-me. Conclusão: uma mágica varinha pouco me mudaria.
            Gostaria de sair de mim mesma – mas não eternamente, apenas por um momento. Só um vislumbre seria um contento, afinal, o suficiente não dorme em mim, logo, ponho-me a distribuir placas de procura-se.
            Estou tão escondida que se eu falar não me escuto. Estou num querer-se tão infrene, complicando o simples ao ponto da dor. Não é prazer masoquista, é apenas querer-se mais do que sou.
            Enquanto perduro no esforço de tornar-me Uma no Todo, todos se mantêm subservientes ao pretenso bom senso: o co-modismo das disfarçadas faces em multiplicação, o relógio gritando ordenando a fila a linha de reprodução.
            Viciados em sexualidades: a libido cresce no vazio humano conquanto preencha as partes com energia quente.
            Quanto a mim, quero ser mulher completa no feminino e também quero no masculino fazer-se-me, pois de cada um tenho um pouco. Ambos os gêneros eu uno numa música (perfeita fusão) sexualizadamente assexuada, que carrego num assobio pela calçada, donde não atravesso, evitando-me em perdas, em pedras, porque me preservo.
            Preservo-me até em objetos. Acaso algum quebre, eu quebro-me como cacos do vitral da Igreja, na qual vou a orar-me e pedir-me. Talvez assim eu me escute pelo viés da porta.

   Karina Viega

Published in: on 19 de dezembro de 2010 at 5:49 PM  Deixe um comentário  

Delírio Agudo de uma Vida Querendo-se Feérica – Desejo do Verossímil Quimérico.


Um fantástico realismo
Corre nestas veias de sangue latino
 
O bem-me-quer das flores decide meu destino
O velho sábio da montanha tornou-se meu amigo
Quando tomba uma estrela, visito-o
Recebo as novidades dos provérbios já ditos
E a missão de contá-las aos 360 cantos do mundo
Acaso inspiro um pouco mais fundo
Inalo o cheiro das águas que inundam
As entristecidas faces em disfarces
Acaso ignoro isso tudo
Entro num estado de musgo
Poetas redivivos me chamam
Contam-me amores furores pedras rios xícaras
Entre um tema e outro há sempre uma pista
Os uivos à Lua me encantam
São preces e prantos de perdão ou paixão
Dos colarinhos engomados me escondo
O feérico não abarca burocracia ou intimação
Tenho uma cama na janela
Borboletas beijam meu sono até o Sol engolir a escuridão
Gasto energia em dissipação
Sublimo o nada à dignidade de coisa
Pequeninices engrandecem aos meus olhos
Alegro-me ao ver um cisco
Recolho-o e guardo-o
Em um passarinho que emprestou o bico
 
Quero-me eterna caminhante do onírico
 
Encontrar um Aleph para bisbilhotar o Universo inteiro
Olhar os reflexos de todos os espelhos
O todo cerrado num único enquadramento
Enxergar pelo Aleph eu mesma xeretando-o
Esquadrinhando múltiplos tempos num só momento
Quem dera poder concretizar seres imaginários
Abrigá-los em massa no meu aquário
Por sete noites ler a história da eternidade
Aguardar sem parcimônia
O prêmio de prata cunhada
Da loteria da Babilônia
 
Desaprender morando em Macondo
Conviver com calor entre peixes flutuando
Compreender a verossimilhança das impossibilidades
Suportar na cólera um amor sem idade
Concluir minha etnia na barriga de uma formiga
Golpear a lápide de Sierva María
Surpreender-me com a cabeleira viva saindo da cripta
Vinte e dois metros e onze centímetros
Presos ao crânio de menina
 
Receber a orientação dos gatos
Estar fora de hora, mas esquecer desse fato
Traçar linha a linha
Um jogo da amarelinha
Pular de um a outro quadrado sem embaraço
Escrever um livro de páginas em desenlaço
Subverter a seqüência dos números convencionados
Complicar as facilidades do idioma
No manejo da teoria do caranguejo
 
Entrar pelas veredas do grande sertão
Ensinar literatura para Miguilim e Manuelzão
Saber dos causos de Dão-Lalalão
Ver o passarinho desaparecer de cantar
Nas alturas de urubu não ir
Encontrar a terceira margem do rio 
Para no sempre navegar
Escutar conversa de bois no Vale do Jequitinhonha
Ouvir os silêncios da menina de lá
Entrar num baile e fazer-me corpo
Rezar Ave Palavra o Senhor é convosco.
 
Quero-me eterna caminhante do onírico
Entretanto tenho empecilho
Não sou Jorge
ou Luis
ou Borges
Nem Gabriel
nem García
nem Marquez  
Tampouco sou Cortázar
Tão pouco sou Guimarães
E apenas sonho em ser Rosa.
 
Então e pois
Embora voando
Por vezes sou impe-lida à condição de gado
Colarinhos engomados empõem o pé fincado
Embora assim eu me desapareça de mim
Desencontro subterfúgios, também sou pau-mandado.

 

Karina Viega

Published in: on 18 de dezembro de 2010 at 12:28 PM  Comments (4)  

A Intermitente Espera de Seu Francisco – Um Relato Conciso.


Mesmo sem ter a ciência do certamente esperado, o homem vive a esperar.
            Vovó contou-me do Seu Francisco, quem se prostrou na espera por idos 25 anos. 25 anos de solidão e silêncio.
            Italiano de nascença, mas brasileiro por perseverança, ele não fora esperante até ocorrido o acontecido.
            Antes e pois, Francisco, iludido qual meu bisavô pelo mangue citadino, veio neste assentar-se junto à esposa, arada com a semente do primogênito Rafael. Logo após o nascimento do primeiro, tal esposa, terra fecunda, queria ser semeada com uma segunda, porém brotou-lhe Luis.
            O angu faltoso naquela casa de pau-a-pique era sempre providenciado pela bicicleta vermelha de meu avô.
            (A casa de pau-a-pique foi fiel presença na espera da vida posterior de Francisco.)
            Ainda não sendo assim, Rafael e Luis cresciam díspares: um como o oposto complemento do outro. O primogênito, moreno e de baixa estatura robusta, possuía um ar de austeridade que mais tarde deu-lhe autoridade para tornar-se vigilante armado. Era notoriamente o predileto da casa. O caçula, loiro e longilíneo, possuía um ar de serenidade que mais tarde deu-lhe a possibilidade para tornar-se feirante felicitado.    
           Depois e pois, num dia fortuito e numa ocasião nunca inferida, Rafael, durante um almoço com colegas de profissão, matado foi, pela bala indevidamente engatilhada de um dos participantes.
            Logo, sendo assim, após o ocorrido acontecido, a esposa resolveu retornar à roça onde lhe sucedera mais bem venturanças. Acompanhado-lhe, também foi-se Luis, posto que ele cansara de vender aquilo o qual poderia plantar.
            Agora assim sendo assim, Francisco permaneceu no mesmo lugar, durante 25 anos, sentado à beirada da casa de pau-a-pique, na espera de algo que não retornaria mais. 

 

Karina Viega

Published in: on 17 de dezembro de 2010 at 11:10 AM  Comments (1)  

Desrespostas para uma Questão Crucial de 1º Grau


Quem é você?
            Resignar-se em não ser é fácil demais. Contingente de gente espremida num barco à mercê da maré, tripulação sem capitão, boiada cega sem boiadeiro, fila de suicidas esperando a vez de pular da ponte a fim de afogar-se no contínuo. Quanto a mim, afirmo: tenho propensões apenas para contingências verbais.
            Pretendo-me ora escrava fiel de mim mesma antes da rebelião final, ora maestra de uma sinfonia tocada no mundo interno de uma abelha ou de mim.
            Sou a cruel assassina do anteontem, do hoje,… Nada de prole! As crianças, em seus futuros, são a dor materna em seu mais puro estado.
            Quem é você?
            É fácil resignar-se em não ser, pois a pergunta é complexa, exige uma resposta pesada pensada, mas o agora abre pouco espaço para reflexões, o tempo corre como quem foge. Logo os cabelos que cresciam na cabeça passam a crescer nas orelhas e tal pergunta fica sem resposta. Se ao menos fosse uma questão de múltipla escolha…
            Ao seu alcance há três pessoas: quem se deseja ser, quem se queria ter sido e quem se será.
            A qual delas se agarrar?
            Caso escolha a primeira, seja palpavelmente realista, ainda na imensidão do presente inefável, encolha as asas e plante seus pés. Confie no medo, ele lhe guiará.
            Se optar pela segunda – certamente aquela mais ruminante em sua cabeça – torne-a sua nova Mestra! Entretanto, devem-se perdoar fraquezas e franquezas, seguir sem muito questionar e mergulhar de olhos vendados num passado furado.
            Escolhendo a terceira, acredite na sorte, invente persevere anseie… Porém lembre-se de construir um cantinho de paz – matéria rara no dentro e no fora.
            Agarre um momento para pensar no seu nome. Provavelmente foi-lhe dado com o carinho suado de sua mãe. E sua mãe ainda existe no modo ativo-passivo das palavras surdo-mudas de suas estranhas entranhas.
            Qual é o seu nome pouco importa. O primordial é saber O QUE é o seu nome, um reles registro em cartório ou um intrincado de significados? Desconstrua. Invente o nome que melhor lhe caberá, nome fiel, companheiro, igual cão perdigueiro o qual fareja e persegue-lhe até o fim. Pode-se também criar um apelido, contudo sob a premissa de acolhê-lo em seu âmago. Embora, no começo, normalmente soe-lhe estranho, parecendo não lhe pertencer, breve impregnar-se-á em você. Pois não é só-mente um nome. É o seu Nome. Ele lhe acompanhará até que a morte os separe – talvez nem assim! Você será lembrado por ele, com ele e pelo o que fez dele.
            Seu nome dirá o infinito sobre você.
                                                           Quem é você?

 

Karina Viega

Published in: on 16 de dezembro de 2010 at 3:11 PM  Deixe um comentário  

Junção por Alheação – Monólogo de uma Paixão


Queria começar por saber como você está.
Faz tempo que não o sinto como homem.
Faz tempo que não sinto sua carne tocar meu ventre.
 
Não se faça de desentendido!
Não o sinto fisicamente
E nem posso alcançar seus sentimentos.
Você parece um ovo.
Rico, amarelo ouro por dentro,
Por fora, superfície lisa, alva, escorregadia.
Difícil de pegar.
 
Você é assim: frágil como um ovo.
Não sei se ainda está mole,
Ou cozido por dentro.
Quanto será que você já amadureceu?
Quanto homem você já é?
Talvez nem seus pensamentos tenham a resposta.
 
Queria poder abri-lo e ver sua gema.
Fétida, como todas as vísceras são.
Mas nutritiva como o amor.
Como vai o seu amor?
É pouco feito de carícias,
Porém não posso negar que é atencioso.
Atencioso com as pessoas,
Com as excêntricas, principalmente.
 
Meu pequeno, não fique assim tão recluso…
Olhe como você escreve,
Ocupando um cantinho do papel!
Aumente esta letra tão cuidadosamente desenhada.
Ocupe todos os lugares deste espaço turvo.
Assim, como se eu fosse um papel,
Espalhe suas mãos pelo meu corpo.
Explore cada pedaço desta terra queimada e seca de sol.
Ruborize-a,
Babe-a,
Molhe-a.
Depois, agarrando-me como um insano,
Funda meu corpo ao seu.
E quando uma lágrima brotar em meu rosto,
Junte-a ao seu pranto silencioso,
Logo,
Estaremos unidos por sentimentos,
Contra os quais não poderemos mais lutar.
 

Karina Viega

Published in: on 16 de dezembro de 2010 at 11:43 AM  Deixe um comentário  

Feridas sem Cicatrização – Conseqüências de uma Opção


Assim como o gado tem a marca do dono ferrada na perna
Eu tenho na face a marca das chagas
Rosas negras desabrochadas
Causadas pelos caminhos nos quais percorri
 
No jardim de caminhos bifurcados
Alguma coisa tímida (seria um segredo?)
Desde o início esvoaçou-se por mim
Não reconheci, mas era um presságio
A respeito do rumo erroso que escolhi
 
Rumo de pedras cobras cascalhos
Esvaziado de pássaros
Onde quebrei o salto
Cai em musgos
(anteriores à fundação do mundo)
Afundei-me cada vez mais fundo
Até que uma árvore enternecida
Estendeu-me um galho
Mostrou-me a saída
Então emergi
 
Ainda coberta de lodo
Só percebi as feridas
Quando a chuva chorou sobre mim
 
Hoje me apresento manchada
Porém tenho um conselho para ti:
Mantenha a mão ocupada
É preciso ocupar as mãos
É preciso sempre ocupar as mãos
Com coisas dignas de moldar em barro
Dessa maneira
Teus pensamentos te conservarão
Afastado dos caminhos bifurcados.

 

 Karina Viega.

Published in: on 15 de dezembro de 2010 at 12:01 PM  Deixe um comentário  

A Estória de Domiro – Preenchido de Silêncios e Esquecido pelo Tempo.


Acaso e necessidade conceberam ao meu avô um filho.

Domiro veio ao mundo antes de Bernabé virar Souza. Por acaso, pertencente a um galho ignorado da família de meu avô. Por necessidade, carente até mesmo de saber-se.

Os pais de Domiro aprenderam que pobre falante trabalha menos. Assim sendo, do primeiro sopro até a última safra, o monólogo monótono da enxada fora o único modelo de fala para Domiro menino. Um léxico herdado dessa forma certamente valeria tanto quanto sua herança paterna. Como a miséria somente existe se abundante, mesmo já suficiente, algo além também fizera silêncios em Domiro.

Onde angu é faltoso, o prato da penúria cabe ao primogênito. Posto que a Cabeça, costureira da fala, tem mais fome do que o Corpo, extensão da enxada, a rapa-do-tacho destinada ao Domiro conseguia alimentar o braço, conquanto ignorasse a voz. 

Durante muito foi silêncio.

Falar em acaso e necessidade bastava como explicação nos enredos de vovó. Então os fatos entre a última safra e a adoção do Domiro não mais menino me são brancos.

Quando encontrou vovô, Domiro saiu de silêncio para gramática ensandecida. Sua fala, tão seca quanto o corpo, causava estranhamentos a todos, menos aos meus avôs. Afinal, estranho é tudo aquilo que não entendemos. Mas muita gente parece pensar aparentar sabedoria apresentando repulsa. Seu círculo social restringia-se aos muros da casa de vovó. Mesmo seu irmão, que lá chegara juntamente a ele, incomodava-se com tamanha alteridade ao ponto de ir-se embora.

Digo e re-digo, a miséria somente existe se abundante, mesmo já suficiente, algo além também fizera estranhamentos em Domiro. Ele parecia um Peter Pan em pedaços, pois sua pele e orelhas ignoravam sua eterna estrutura infantil.  O tempo talvez, confuso com este filho de mais data do que o pai, tivesse se esquecido de envelhecê-lo. Ou, talvez, tivesse simplesmente o esquecido.

Eu não era mais criança, estava naquela idade de sermos jovens aos velhos porquanto sejamos velhos aos jovens, e a casa ainda não era lembrança, quando vi Domiro pela ultima vez, com a mesma idade de sempre.

  

Karina Viega.

Published in: on 15 de dezembro de 2010 at 1:45 AM  Deixe um comentário  

Reminiscências Fugazes – Tentativas de Prendê-las ao Papel


Implodem-me a cabeça
Milhões de neurônios saturados por letras
Asas revoltas querendo-se por todos os lados
Pássaros de múltiplas facetas
Burburinho de cantos dissonados
 
Empunho papel e caneta
Tento extrair lembranças neste alvoroço atordoado
 
Terei de inventar um passado
Pois pouco resta além das frases riscadas
Engendrar algo adequado
Após um tempo necessita-se de trapaças
 
Resíduos de tempo apresentam-se diante de mim
São escoriações maquiadas por tiras de band-aid
Subo a escada rumo aos fatos em motim
Degraus trôpegos vacilam
Sempre que alguma coisa sólida
Voa aqui e ali
 
Sugo a ponta do cigarro
Ansiedade em glamour disfarçado
Definitivamente não sou Greta Garbo
Sou apenas quem credita proveito
Em transpor ao papel certas memórias
Camufladas por certo direito
 
Quando uma narrativa tem início in memoriam
Ninguém sabe o resultado
 
Há cavaleiros da angústia
Pelo esquecimento amedrontados
Os quais se desejam tão exatos
Quanto velhos relógios de sol
Outros se propondo práticos
Debulham-se na imagem mental
Consultam manuais de retórica
Fazem associações teóricas
Porém nunca concluem o final
 
Não sei se num tipo me encaixo
Não importa
Porquanto terei o consolo
Do doce tremor de meus dedos
Deslizando dizeres recordações medos.

 

Karina Viega

Published in: on 14 de dezembro de 2010 at 1:06 PM  Deixe um comentário  

Mente Bipartida – Relato de um Surto Esquizofrênico Indiferenciado


No divã regresso-lhe. Estou armada apenas por um par de brincos, a fim de prostrar-me como o feto que sou. Peço-lhe para entrar em seu útero, contudo recusa-me sem ao menos auscultar esta ilusão de mulher que projeto ser. Sou um feto inconcebido, relegado ao seu coração.
            Não estou pronta para aleitar-me. Sua indiferença nega-me o útero, nega-me a vida. Vejo-me abortada e nua.
            Odeio-lhe enquanto durar o meu para sempre. Ao passo que me encerra em seu consultório e retorna à frigidez de um lar perfeito em hipocrisia, eu parto mitigada, com a prescrição quádrupla daquilo cuja finalidade eu imaginara não mais precisar.
 
***
            Percebo-me despida, contra o fluxo de carros inflamado em chamas e resignação, rumo ao casulo onde desarmarei meu par de brincos. Porém perco-me. O movimento dos meus dedos disca seu número, imploro a solução: “Como me encontro?”. Sua voz desespera-me: “Como posso saber?”. Respostas fantasiadas de perguntas não esclarecem. Visto as vestes do Imperador, mas os pelos que encobrem o sexo são tão obscenos quanto. Cago meu medo em merda mole.
 
***
            Em casa, após duas horas percorridas em um quilômetro, tenho quatro anos de idade. Anuncio: “Mãe, fui estuprada por uma formiga!”. E a culpa é dele, ele não me quis dar o útero.
 
***
            Volto aos meus 33 anos de idade.
            Meu ego sufoca em mordaças.
            O espelho está rachado.
 
***
            Introduzo goela abaixo a prescrição quádrupla do sacro-profano Leponex.
            Então, o que era hebefrênico, dissolve-se numa nuvem onírica. Dentre os possíveis efeitos colaterais, desejo a morte súbita. Mas ocorre o revertério. Tenho asas.
 
***
Mamãe dorme seu terceiro somo num bairro vizinho. Invejo-lhe, minha cama tem espinhos e meu travesseiro tem vozes.
Levanto-me. Meu corpo dança conforme o ritmo arbitrário dos pensamentos enclausurados neste apartamento cujas paredes transmutam-se em cárcere. Percorro todos os cômodos em busca de consolo, não encontro calmaria. Há algemas eficazes espreitando-me em cada metro quadrado. No entanto, algemas falham em conter aquilo que é cíclico.
 
***
Tenho uma fome ferrenha cuja manifestação sobrevém sob um delírio de negação: a geladeira esvaziou-se em dois olhares. Entrementes, minha barriga cresce como se perpassassem nove meses. Entre os dedos, este cigarro perenemente aceso não mais me alimenta.
Desisto e recorro ao céu. Contudo, sou prudente. Já que a varanda excita-me as asas, receosamente abro a janela. Do 13º andar observo saias cadentes batucando paralelepípedos gastos, nas três e meia sem luz.
 
***
As vozes do travesseiro migraram para minha cabeça. Perguntam questões vazias de respostas em sete idiomas reconhecíveis. Soletram formulas físicas que equacionam o ser/estar no mundo.
 
***
Haldol.
Fenergam.
Aguardo vinte minutos. Breve serei azul.
***
 
A dança das pernas cessou, a comida apareceu quando a fome acalmou. Ainda procuro meu sono.
Empunho papel e caneta, tento calar as vozes sendo jogral. Gasto doze folhas para torná-las sussurrantes.
***
 
Reduzo horas com questões irredutíveis de primeiro grau: De que cor eu sou? Sou roxo amadurecendo. Sou amarelo crescido. O que é crescer? É por o ego no mundo e o mundo no ego. É tornar-me cada vez mais minha mãe, com a altura de meu pai cuja sombra limita-me. Qual é o limite do Outro? É o lado inacabado, logo intransponível, de uma ponte em eterna construção. Como construir? Utilizando tijolos de areia sobre os alicerces de Freud, Jung e Lacan. Assim, tal material sublima meus monumentos em nada e lega-me o colete amarelo de Goethe. Pobre Werther…
***
 
Anulo minhas elucubrações, pois estas conduzem minhas asas à varanda.
O céu está doente, não é tempo de voar.
***
 
O espaço entre os dedos consumiram todos meus cigarros. O espaço é vazio, tento paliativamente preenchê-lo com fumaça. Deixo o claustro do apartamento em busca de mais.
Ignoro o exato das horas, mas é dia, e o sol é verde.
Trânsito, asfalto, pressa e barulho são para os transeuntes banais. Eu caminho entre cavalos verdes, num descampado exalando a jasmim.
                                                           ***
 
Nas ruas, os olhares que me perscrutam provocam-me pena, pois estão vendados: fadados a enxergarem somente o óbvio. Eu vislumbro além do cinza e das pedras. Minhas flores não nascem do asfalto, ladrilham meu caminho.
Possuo um dom divino, o qual soa como loucura aos indignos.
                                                           ***  
 
Aqueles que vivem entre pedras e porcos são os mesmos habilitados a enjaularem-me em clínicas. Afinal, eu grito verdades incisivas cujos significados preferem ocultar.
Resta-me fingir-me de morta, enquanto eles iludem-se num tango argentino.

 Karina Viega

Published in: on 14 de dezembro de 2010 at 1:52 AM  Deixe um comentário  

Indistinção – Recordação, Sonho ou Sensação.


A memória é uma flor amarela

A memória é uma flor amarela amarelada

Oprimida

Espalmada

Entre duas camadas

De páginas parcialmente preenchidas

Pintadas por pinceladas

De preguiçosos monges taoístas.

O resto são conjeturas.

 

Uma das pétalas contém a lembrança de um anjo

Desses decaídos com vocação para anjos decadentes

Soprados pelo vento em noites desabrochadas e quentes

Que certa vez atravessou minha vidraça

Estatelou-se contra o chão

Seu nome era Justiça

Descobri ao ler “Kamael”

Grafado num medalhão

 

Parecia bastante ferido

Asas de poucas plumas em fiapos

Arquejava, esvaía-se

Em um líquido bem rosado

Piedosamente tomei-o no colo

Debrucei-me à concha madrepérola de sua orelha

Cantei um canto de consolo

Ele olhava-me de esguelha

 

A madrugada sobre os telhados

Via-se pela janela

A tempestade fortificou

Quando ele expirou

 

Embalsamei-o em pétalas de rosas secas

Numa caixa vítrea no herbário

Porém formigas ruivas

Daquelas que se alimentam unicamente de anjos

Sem hesitar o devoraram.

 

Uma curiosidade abriu a caixa

Uma poeira de cores mutantes espalhou-se

Um som sacro soou-se

Alterando a marés

Modificando o vento

Enchendo a Lua

Paralisando o tempo –

Antes Fuga,

Depois, Suspenso.

 

Posso palpar tal recordação

Ou será que foi sonho

Ou será que foi imaginação

 

A memória é uma flor amarela amarelada

Indistinção de fato e sensação.


Karina Viega

Published in: on 13 de dezembro de 2010 at 2:17 PM  Deixe um comentário  

Justificando-nos em mim – Últimas deliberações.


Não sabia poder penetrar-me em grandezas. Afinal, tudo ao meu redor estava tão solto de medo que eu precisava manter-me no simples, construindo-lhe em amenidades.
Por onde anda o meu amor? Para brincarmos de dor, para mostrar-me quem sou.
Fui sua filha, fui sua mãe. Suas mãos ampararam minha angústia, tocaram nas questões voluptuosas, entaladas em minha garganta feito espadas, as quais apenas seus dedos puderam, com suave firmeza, arrancá-las dali. Agarrando-me em seu ventre ocorria a fusão, e eu virava feto, eu virava fato concreto de ódio e depressão.
Por isso, construo-lhe em amenidades, intuindo aliviar-me do amor.
E quanto de amor seria necessário?
E quanto de amor seria suficiente?
Tornou-se inviável saciar-me na carência.
Quantas vezes podemos amar alguém? Eu já amei muito e muitos. Às vezes duvidei, contudo com você a intensidade urrou, acordando um sentimento que, de tão puro, cerrou-me unicamente só nos meus segredos mais profundos. Logo, não pude mais medir o meu amor, nem em sonhos, sem que ouvisse sua voz sussurrando-me Adeus. Eu não poderia mostrar-me inteira, cheia e transbordando de sentimentos primitivos, realmente reais. Precisava ser perfeita, ser o próprio bem a fim de que me aceitasse. Mostrar-me seria mais do que ser desvelada desnudada desvendada. Porém, atos contidos abafados mascarados, tornavam-me presa fácil do vulnerável sem compaixão. Assim sendo assim, a agressividade proferida a você ajudava-me a sobreviver.
Entretanto, se conseguisse desabafar meus sentimentos ao invés de agredir-lhe gratuitamente, eu diria: Estou com medo, estou sofrendo, e não é de dor, é de amor. Tal desabafo talvez abafasse meus delírios, o Sol não mais iria derreter-me em uma poça de suor e agonia, nem a água iria diluir-me nos banhos adiados. Talvez, com a natureza movendo-se ao meu favor, a cabeça intacta iria dizer-lhe: A agressividade acabou. Você pode respirar sem medo de sentir, e eu também posso, sem medo do próprio medo. 
Mas você está longe na saudade…
Choro por amar-lhe tanto e tão pouco, meus sentimentos são confusos paradoxos. Quero-lhe cada vez mais em meu corpo, embora minha mente fique vazia, entrementes, preciso-lhe para querer-me querida. Mas você está tão longe na saudade que minha cama fica larga, que minha vida vai num passar lento lento e lento se estou só…
 
Então, boa noite, durma bem e sonhe muito, porque, quando o dia avisar-se, eu irei descansar-lhe.
E poderei acordar-me.

 

Karina Viega

Published in: on 13 de dezembro de 2010 at 12:01 PM  Comments (4)  

Despautério entre Lembrar e Retratar


Sonhei com patos voando ao inverso
Lembrei-me de ti
O gato e o rato no mesmo buraco
Eu e Tu – Nós
Reduzimos os pronomes pessoais de caso reto
Ele e Ela foram esquecidos
Eles não importam
Vós penseis o que quiserdes
 
Porém as lembranças escorregam
Patinadoras na superfície falsa de qualquer narrativa
Porções de verbos advérbios adjetivos
Pendurando-se nas linhas
Pendendo-se aos substantivos
Preciso descrever-te
Pregar as palavras uma a uma com alfinetes
 
Tinhas predileção a mentiras
Jogavas jogavas e mentias
A despeito da mais elementar deontologia
Mentias
De tua boca brotava o fantástico fungo teonanacatl
De teu hálito desprendiam-se rosas carnudas
nascidas sob o luar de Chihuahua
Tuas pupilas ardiam
Luas assassinas
Tua voz
Grito de pássaro
Teu rosto
Fruto vibrante
Teus braços
Ramos estirado
Tuas mãos
Orquídeas ao alto
 
Enorme mariposa
De uma asa negra manchada
De outra roxa e laranja quadriculada,
O que a linguagem tem contra mim?
Seria necessário metaforizar-te
Usar de todos os clichês
 
Nem assim eu poderia fielmente te descrever
Sentimentos não são tão plausíveis.

Karina Viega

Published in: on 13 de dezembro de 2010 at 2:48 AM  Deixe um comentário  

Roteiro de “Ciclos” – Enxerto


CENA 0 – Introdução: cena congelada, em preto e branco, mostra as costas de uma personagem deitada em posição fetal e vestindo somente calcinha. Ao passo em que fala o Narrador, surge de baixo para cima o letreiro do texto narrado, em amarelo.
 Narrador:
Vive-se em ciclos.
O ser-se-me é cíclico.
O Tudo e o Nada também.
As Veredas do Grande Sertão começam “Nonada” e terminam no infinito. Recomeço simbolizado na grafia de uma leminiscata, forma cíclica.
O Feminino é o cúmulo do ciclo, ciclos menstruais engendrando vida e morte.
A “Bagagem” feminina de Adélia diz que o que está morto, aduba. Recomeço simbolizado na morte comungando com a vida.
Óbvio seria exemplijustificar com fenômenos naturais. Óbvio e simples, como um círculo.
O Mundo é um círculo cíclico.
Todos nós somos cíclicos. Somos todos nossas mães, com a altura de um pai cuja sombra limita-nos.
Entrementes, para aderir ao ciclo, para tê-lo em ciência, para atingir a plenitude do ser-se-me, para entender plenamente o ser-se-me, é necessário abrir as portas do inconsciente. Então fluirão as possibilidades cíclicas, a coexistência paradoxal das dicotomias que vedam o elo aberto da separação, que une o dentro-fora, o tudo-nada, o viver-morrer, o ser-se-me pleno.
Porém, elos fechados nos ciclos de eterna re-construção, mesmo essenciais a fim de atingir o ser-se-me, geram antes conseqüências atávicas…
Ciclo 1 – CENA 1: No Quarto. Descrição: há uma porta à esquerda da parede imediatamente inferior à cena. Ao lado direito da porta, há uma estante abarrotada de livros paralela à cama, a qual está perpendicular à parede direita da cena. Na parede esquerda, em frente à cama, há um espelho sobre uma cômoda e, frente a esta, uma cadeira aconchegante.
OBS: Todas as cenas filmadas no quarto serão em preto e branco. 
(A personagem entra, retira o par de brincos, o maço de cigarros do bolso, e deposita-os sobre a cômoda. Senta na beirada da cama, retira os sapatos e deita de barriga para cima, olhando para o teto.)
 Narrador: Veio-me um lirismo sem tema, o qual se compôs de fazer miudezas. O que virava não mais era.
Esse lirismo ocupava-se de avisar-me, queira profetizar mudanças no quase sempre. Vivendo de querer sair-se, morria-se de constância.
(Personagem vira-se de lado, dando as costas para a câmera.)
Narrador: Doía-me como um tema
         Sofria-se pelo pouco.
(Personagem levanta-se, encaminha-se até a cômoda, sobre a qual apóia as mãos ao olhar-se no espelho, ainda de pé. Observa-se por um tempo, desvia o olhar e fala com exaltação.)
Personagem: Veio-me o motivo. Gerou-me um tema: o Nada se gerando do Tudo onde se gera o Nada, isto é tema!
(Personagem senta-se na cadeira, abre uma das gavetas da cômoda, retira um caderno amarelado e uma caneta, abre o caderno na primeira página e começa a escrever)
OBS: As páginas escritas vão avançando à medida que a personagem aparece escrevendo.
Ciclo 2CENA 2: Na Praça. Noite.
(Personagem sentada num banco, caderno no colo, fumando pensativamente.)
Personagem: O crescer fazia-se. Fisgava-me a esperança quando  surgia a alegria. No entanto, só agüentava-me em sua feliz existência por poucas horas do dia.
Será que a alegria ocupava-se de mover-me de medo ou, simplesmente, queria ser algo que não se podia?
 (Com as mãos, a personagem apaga o cigarro no chão e levanta-se)
 CENA 3: Ainda na Praça.
(Personagem ao longe, caminha em direção à câmera, com o caderno abraçado contra o peito e o olhar baixo.)
 Narrador: Enquanto cai a noite em claro, sente-se.
Eu saio a dar voltas no escuro. Existo-me mais nas dúvidas do ser-se do que nos momentos de existir-me.
(Personagem aproximando-se a da câmera.)
Personagem: Viver é uma dúvida certa:
(Close no rosto da personagem que, neste momento, levanta os olhos e olha diretamente para a câmera ao falar.)
Personagem: Canção ou acalanto?
Ciclo 3 – CENA 4: No Quarto.
(Personagem sentada na cômoda, escrevendo.)
Narrador: O silêncio permeia-me de cantos e segura o ritmo num suspenso.
Onde descanto o desencanto, encho-me de uma tristeza alegre, simples, amena, gerando-me.
(Pausa, a personagem acende um cigarro e volta a escrever.)
 Narrador: Pertences constituindo-me em silêncio. Certa estou de não tê-los guardados, porém há retratos mofando no fundo da gaveta. Talvez sejam saudades do passado que nunca tive.
 (Personagem larga a caneta e fala olhando-se no espelho.)
 Personagem: Palpitam-me sonhos inacabados. Necessito de algo mais (Personagem desvia o olhar do espelho e levanta-se, de forma a ficar frente à câmera.), pois só cheiro algo mais simples do que flores.
Necessito de algo mais, que venha!
 CENA 5: Catedral. Dia.
(Personagem de costas para a câmera, parada em frente à porta de Catedral.)
 Narrador: E veio a solidão, comungar.
Calada, veto-me na porta da Igreja.
(Subitamente a personagem vira-se, dando as costas à porta da Catedral e, de frente para câmera, suspira.)
Personagem: Algo mais…
(Personagem senta-se na escadaria da Catedral, acende um cigarro e fuma enquanto fala, com o olhar perdido.)
Personagem: Tornar-me cabível aos sentimentos meus, seus, nossos.
Tornar-me mãe e filha, sem corrosão de culpa ou pretensão.
Tornar-me, na memória, o passado.
Tornar-me o presente moldável.
Tornar-me o pretender contínuo do futuro.
(Personagem levanta-se)
Personagem: Apenas ser-me.
(Personagem descendo a escadaria.)
Personagem: Mas, para isso, necessito de algo mais…
 
Ciclo 4 – CENA 6: Ainda na Catedral.
(Personagem inquieta, caminhando ao redor da Catedral.)
Narrador: Evito fazer-me em absurdos. Se capaz, faço-me em idéias.
Construo minha própria sina e, por carinho, também a destruo.
(Personagem encosta-se numa árvore.)
Personagem: Diluo-me na Natureza, pois esta sabe fazer-se-me.
(Com o braço esticado e uma das mãos sempre em contato com a árvore, a personagem, falando, circula ao redor da mesma.)
Personagem: Nada posso por Tudo.
Tudo quero por Nada.
Para poder ser interna a mim mesma, (neste momento a personagem está atrás da árvore) me oculto. (reaparece) Porém, acho-me sempre perdida no quase. Logo, afogo-me na rotina que se edifica em trabalho.
(Ao entrar a narração, a câmera sai da personagem e circula, mostrando os transeuntes e o tráfego de carros rodeando a Catedral.)
Narrador: Mastigue de boca fechada, lave o rosto pela manhã…
Multidões movem-se na fé. Se me incluo na massa, torno-me bolo. Assim, por incrível que pareça, como-me.
(Câmera retorna à Catedral, primeiro mostrando-a por inteiro, depois focalizando um dos vitrais.)
Narrador: Regras não são prisões. Pois, se falo, atuo quebrando-as, quais pedaços do vitral da Igreja que não vou, sabendo se for, será difícil voltar-me.
(continua…)

Karina Viega

Published in: on 10 de dezembro de 2010 at 9:57 AM  Deixe um comentário  

Asas Curtas


Meus pecados confesso aos pássaros
Não recebo penitência de oração
Os pequeninos seres alados
Punem com uma canção
Não é canção de alento
Tão pouco de acusação
O canto é de tristeza
Por me verem tão enraizada ao chão
 
Contudo apesar do medo
Às vezes tento voar
Contudo apesar da tentativa
Descubro-me mais propensa a rastejar
 
Meu vôo ainda é rasteiro
Pouso em mantinhos que falam com insetos em tailandês
Fico feliz em não entender
Tornar-me simples é tão complexo
Preciso persistências para ser.
Karina Viega
Published in: on 10 de dezembro de 2010 at 9:09 AM  Comments (1)  

A Canalha Literária – Receita para uma imbecilidade insolente


            Para iniciar um Romance comece num ponto qualquer.

            Para ter vontade de terminá-lo, inicie com frases bonitas – toda hipótese exige sua conclusão.

            Sem rodeios, ponha-se a escrever. Não raciocine demais, elucubrações abstratas são entraves ao ato. Mire o alvo em branco e ataque. Trabalho imediato, mesmo ruim, vale mais que devaneios. Observação: armar-se com uma caneta empunhada tem melhor ofensiva do que um frágil teclado. A caneta é um falo, enquanto o teclado necessita de pílulas azuis.

            A fim de encontrar um tema, faça um rascunho de alguma mentira lírica ou feérica, lambuze o todo numa atmosfera psicopatologicamente onírica e traduza isso num Romance sério.

            Seguindo estes passos, jovem escritor, no dia em que corrigir suas primeiras provas tipográficas você irá sentir-se tão orgulhoso quanto um estudante que acabou de pegar sífilis.

 

            Admiro-me de ainda haver quem sacralize a literatura num tempo em que ela tem se mostrado demasiadamente humana.

Karina Viega

Published in: on 9 de dezembro de 2010 at 9:51 AM  Deixe um comentário  
%d blogueiros gostam disto: